Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A inovação no Cinema: Jarmusch

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.11.18

 

 

Broken Flowers. Revi este filme num dos canais de televisão. A mesma surpresa agradável. As personagens são-nos apresentadas no seu habitat natural: Don, o homem só, o Winston, o homem de família, e cada uma das mulheres da vida de Don numa casa que as identifica: a descontraída, a ambiciosa, a afectiva, a impulsiva e a "pequena no cemitério".

Winston é praticamente toda a sua vida social. É só sair de casa e entrar na casa ao lado. É a extensão do seu mundo. Nesse mundo tem tudo o que precisa: a solidão da sua casa e a companhia de uma família na casa ao lado. A namorada é apenas uma hóspede, alguém que lhe faz companhia mas de quem realmente não precisa. Por isso as mulheres entram e saem da sua vida.

A possibilidade de ter um filho de uma das antigas namoradas é o motor da viagem. E Don segue o guião que Winston lhe prepara.

 

A inovação de Jarmusch começa na forma de filmar: A imagem ilumina-se como no processo de abrir os olhos e apaga-se lentamente como no processo de os fechar. As imagens surgem a partir do acto de ver.

O ritmo das cenas aconpanha o ritmo de Don, um pouco apático: as ruas, as casas, as pessoas, na perspectiva de Don, com o seu ritmo próprio. 

O ritmo das cenas acompanha a vida real. O tempo da cena é o mesmo da vida.

Os pesadelos de Don quando adormece no avião também seguem a sua lógica metafórica própria. Imagens que ficaram registadas e que se sucedem para processar as emoções.

Emoções de que Don se distanciou tanto, como um dormente emocional, que só desperta no cemitério e na conversa com o miúdo que podia ser seu filho.

O final também é inovador. Don vê o miúdo escapar a correr e fica parado no meio da rua.

Fica a sensação que a sua vida estará mais aberta às emoções e às outras pessoas do que até aqui.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:29

A inovação cultural no cinema: Steven Soderbergh

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.17

 

 

Sexo, mentiras e vídeo foi uma pedrada no charco no cinema da década de 80. Minimalismo e simplicidade: poucas personagens, informação essencial através dos diálogos, cenas calmas e nunca monótonas. Um filme novo e refrescante, a lembrar os vídeos caseiros, com o profissionalismo de um realizador criativo.

Como todos os filmes inovadores, marcou o cinema a partir daí, tecnicamente e culturalmente.

 

As personagens principais são, elas próprias, complexas e pouco comuns. Ambos sensíveis e vulneráveis, facilmente magoados pelas personagens comuns, ela pelo marido e pela irmã, ele pela ex-mulher. Cada um deles lida com a sua própria solidão retraindo-se, refugiando-se no seu mundo (a casa): ela em constantes limpezas, ele filmando entrevistas intimistas a mulheres.

A perspectiva da vida deste voyeur antecipa a perspetiva de gerações posteriores: tudo o que tem cabe no carro, possuir apenas o essencial, simplificar a vida ao máximo. É uma personagem, ela própria, vinda do futuro. :) 

 

Para as personagens comuns o sexo implica mentiras e risco. É a aventura à custa dos outros, uma espécie de competição (a irmã), e o exibicionismo masculino (o marido). 

Nas personagens comuns o exibicionismo - voyeurismo é físico. Nas personagens incomuns é psicológico, a intimidade física é sugerida, fantasiada, há um espaço-tempo, um intervalo, onde pairam antes de mergulhar, e para mergulhar precisam de confiar, de saber que não vão ser magoados.

Ela liberta-o da sua solidão e receio onde se esconde e, ao libertá-lo, liberta-se da sua própria solidão e receio.

A cena final é como um respirar calmo, como um chegar a casa, e a casa já não é dentro de casa, é cá fora, à entrada, à luz do dia, um e o outro. Dizer isto em linguagem do cinema é magnífico.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:46

O cinema num futuro próximo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.03.17

 

 

Como será o cinema num futuro próximo? Continuará a prevalecer a longa-metragem? Quais os géneros que terão mais audiência? O cinema passará a ser interactivo?

 

Em 10 anos em que este rio aqui navega (festeja a 14 de Julho), muita coisa mudou no cinema, embora pareça estar tudo na mesma. :) A longa-metragem é o formato que domina; o investimento necessário ainda é elevadíssimo; os prémios continuam a ter uma importância especial, sendo os óscares os mais valorizados; os actores continuam a ser os mais bem pagos da equipa, bem acima dos argumentistas e da edição/montagem, por exemplo.

 

O que mudou e está a mudar é cultural: uma maior proximidade dos actores com o público; uma maior participação dos actores, realizadores e produtores em projectos de valor social; uma consciência da responsabilidade do seu poder de influência. Vemos muitos actores a realizar filmes e/ou a produzir filmes, o que revela que hoje os actores participam activamente no processo criativo.

 

As maiores mudanças no cinema estão a delinear-se:

- as mega-produções e co-produções, como The Wall, serão frequentes e promissoras;

- haverá cada vez mais espaço e oportunidades para a inovação cultural, que surgirá´de micro-produções de equipas e/ou de comunidades criativas, pois a tecnologia acessível é cada vez mais sofisticada;

- o género documentário irá florescer a par dos outros géneros, e os actores poderão ser recrutados na população geral e/ou de uma comunidade local, especificamente para cada projecto;

- na ficção científica procurar-se-á a verosimilhança, o respeito pelas leis científicas em detrimento de efeitos especiais e da fantasia;

- a animação será a indústria com um potencial incrível, onde tudo ainda é possível;

- a curta-metragem passará a valer por si, deixando gradualmente de funcionar como uma simples apresentação de um trabalho para captar investimento para a longa-metragem;

- a média-metragem (40' a 50') começará a ser preferida relativamente à longa duração actual;

- o cinema torna-se interactivo: os espectadores participam na experiência, seja em forma de avaliação emocional de cada cena, de comentários em forma de símbolos ou outros feedbacks. Ir ao cinema será equivalente a ir a uma festa, participar numa experiência sensorial e emocional. Veremos, no final da apresentação do filme, a possibilidade de ficar para a segunda parte com o feedback da assistência que poderá levar a alguns momentos interessantes e até hilariantes, tal como acontece no teatro. Também poderá incluir filmagens de comentários dos elementos da equipa sobre a ideia e a experiência, ou cenas que não foram incluídas, ou episódios cómicos, tal como nas cassetes e nos cd's que alugávamos nos clubes vídeo. O espectador deixará, pois, de ser tratado como voyeur, excepto nos filmes considerados para adultos :) ;

- os clichés estarão fora de moda: ninguém consegue agarrar-se à ponta de um precipício depois de se ter desequilibrado, um fugitivo não escolhe correr no meio da rua ou da estrada, a explosão iminente de uma bomba não é travada no penúltimo segundo :)... e o cliché padrão da comédia romântica: rapaz conhece rapariga, sentem-se maravilhosamente na companhia um do outro, zangam-se, música de fundo e rostos tristíssimos de cada um e, já quase no final, as pazes com um beijo :).

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:39

Elysium

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.11.16

 

 

Elysium não nos surge com um filme preocupado com a linguagem cinematográfica mas com a mensagem. E a mensagem é directa, clara, forte:

- as questões ambientais: uma Terra devastada, árida, poluída, de cidades sem as condições básicas da vida: qualidade do ar e da água, da habitação, de higiene, de saúde, da educação, do trabalho. As cidades são caóticas, o pó eleva-se nas ruas, imaginamo-nos numa zona esquecida de um país da América do Sul;

- a distância enorme entre os muito ricos (muito poucos) e os muito pobres (todos nós), entre o céu (Elysium) e o inferno (a Terra);

- a questão dos refugiados (todos nós);

- a cidadania, o acesso à saúde e à qualidade de vida (dos muito poucos);

- as novas tecnologias ao serviço dos cidadãos (os muito poucos);

- as indústrias poluentes e tóxicas (a operar na Terra);

- os terroristas, aqui ao serviço do poder (informal, não reconhecido oficialmente) de Elysium;

- os hackers, que aqui funcionam como agentes libertários e com consciência humana.

 

Os momentos mágicos do filme coincidem com o seu início e o fim, precisamente, e isto é raro nos filmes actuais que começam inspirados e acabam na mediocridade. Isso não acontece aqui. Um miúdo sonha um dia ir para lá, Elysium (o céu) e já lá, é essa a última imagem que o cérebro retém, e a premonição da personagem maternal: Vais fazer alguma coisa de extraordinário no mundo.

 

Outro recurso do filme que funciona muito bem, as línguas e os sotaques das personagens, a corresponder à cultura de base que representam: 

- A Secretária de Defesa (responsável pela protecção de Elysium) é francesa, remetendo-nos de imediato para a cultura da elite dos muito ricos em França (divisão, classismo, preconceito, ausência de empatia e de consciência humana);

- a personagem maternal (freira) é sul americana, representando aqui o afecto, a empatia, a cultura comunitária e de colaboração;

- o nosso herói é um americano que absorveu a cultura de cidadão, sem saber que essa cidadania não serviria na sua pele de rebelde;

- o terrorista que executa serviços não oficiais para a Secretária de Defesa parece de origem boer (África do Sul do Apartheid) a que se junta uma miscelânea de línguas e sotaques dificilmente identificáveis;

- os hackers são internacionais e aqui surge-nos uma cultura mista de sobrevivência oportunista (preparam, e lucram com isso, viagens clandestinas de refugiados, pagas a peso de ouro, para Elysium).

 

Implícita fica outra mensagem, uma crítica à cultura pueril e profundamente egoísta dos cidadãos de Elysium: as casas reproduzem as mansões das celebridades actuais, com as suas piscinas, a suas amplas entradas, uma excentricidade imoral em termos de espaço e gastos energéticos. A sua vida quotidiana parece resumir-se a actividades de lazer, financiada com o trabalho dos refugiados (na Terra) e dos robots e das novas tecnologias, como a máquina da saúde (no céu). Esta visão de gente inútil e superficial contrasta, como um grito, com os hospitais da Terra sem condições nem pessoal, as fábricas sem protecção nem segurança, o desespero dos viajantes clandestinos, as crianças a correr nas ruas poeirentas.

 

Matt Damon é um dos poucos actores americanos que dá credibilidade e verosilhança ao papel do homem comum, o cidadão do mundo com que nos podemos identificar. Talvez porque seja essa a sua natureza, a que se sobrepõe à personagem, uma consciência humana, inteligente, rebelde, interventiva.  

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:46

A Pottersville no cinema e a Trumpland no documentário

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.10.16

 

Voltar a este rio sem regresso por causa do Trump? Não é bem assim. Tudo começou com uma perplexidade: ver uma personagem como Trump ficar na corrida presidencial americana até ao fim.

Lancei um desafio a mim própria: escolher um filme por semana no It Happens every Spring até às eleições de Novembro. Nem sempre consegui cumprir, saltei algumas semanas. Além disso, comunicar em inglês é mil vezes mais difícil para mim do que em português. Às tantas já me ouvia a falar como algumas personagens dos filmes americanos que vi ao longo dos anos...

O desafio era revelar a influência do cinema na cultura americana, os valores que se foram perdendo, a cultura do lixo a invadir tudo, a política, os media, a vida em geral.

O cinema revela mais do que parece. Através das personagens, da sua acção na comunidade e da sua interacção com outras personagens, vemos e sentimos o mal-estar, a inquietação, o desânimo, a esperança, e a construção de um futuro possível. A arte serve para revelar, sacudir e acordar.

Foi assim com a cidade do Potter em It's a Wonderful Life. A rendição de uma comunidade ao lucro como único valor a seguir, passando a ferro a dignidade, autonomia, qualidade de vida e perspectivas de futuro das pessoas. 

 

 

Esse mundo paralelo só não prevaleceu porque uma personagem generosa, corajosa e determinada, George Bailey, tinha uma visão para a comunidade e persistiu até ao limite das suas forças. E depois teve um anjo a lembrar-lhe o que tinha já conseguido na sua vida.

 

Desta vez é um documentário que vai sair esta semana: Michael Moore na Trumpland. Promete.

 

 

As semelhanças Trump-Potter são evidentes. Mas Trump consegue ir mais longe na cultura da encenação e do entretenimento. Por isso o comparei a Nero a tocar a lira enquanto Roma ardia. Digamos que Potter é manhoso e inteligente no seu propósito e consegue ser bem sucedido nos negócios. Trump destrói com a mesma facilidade com que constrói, e aqui temos a cultura do lixo no seu esplendor, nada tem valor a não ser a sua utilidade no momento, lucro mas sobretudo a fama, nada perdura no tempo, nem o que se diz nem o que se faz, nada é para levar a sério. Tudo roda à sua volta como uma grande corte de fãs, de serviçais e figurantes que despreza. É com o mesmo desprezo que trata os empregados dos hotéis e casinos e dos empreendimentos que faliram. Essas construções monstruosas agora vazias dizem tudo sobre a personagem e a cultura do lixo. Nada fica a não ser comunidades desorientadas e desorganizadas.

Daí a perplexidade: será a sua revolta de tal dimensão (contra um sistema injusto, que se rendeu à finança e ao clã dos muito ricos e influentes e exclui a maioria dos cidadãos, que colocou famílias na rua e deixou casas desertas, que encarcerou uma fatia enorme da população sobretudo afro-americnos, etc.), que preferem render-se a esta espécie de Joker?

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:24

 

 

 

Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:44

A cultura americana e o cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.16

 

 

Neste rio sem regresso navegam filmes do cinema americano que vi na infância na televisão a preto e branco, na adolescência no cinema, e mais tarde nos DVDs, nos CDs e nos canais por cabo.

O cinema americano serviu e divulgou a cultura americana mas também deixou as suas marcas culturais, uma certa inovação nas ideias e nos comportamentos, uma certa irreverância crítica, uma certa frescura a saber a futuro.

 

Peguei nesta ideia da influência mútua, cultura americana e cinema, para iniciar uma série no It Happens Every Spring, de um filme por semana até às próximas eleições americanas em Novembro. A ideia inicial era tentar perceber o fenómeno Trump. Como era possível esse fenómeno na América do séc. XXI? A verdade é que soma votos populares nas Primárias e segue para Bingo no partido Republicano.

A pouco e pouco, e ouvindo alguns experientes jornalistas independentes, comecei a vislumbrar a complexidade do fenómeno e a razão da sua popularidade. O fenómeno deve o seu motor ao próprio sistema político americano, à sua decadência, à sua adulteração, aos seus desvios democráticos. Os partidos deixaram há muito de representar os cidadãos para representar os grandes grupos corporativos, e tudo isto ficou mais visível depois de 2008 ao socorrerem os bancos (a finança, o mundo virtual) e deixarem na rua famílias inteiras (a economia, a vida real).

 

O primeiro filme desta série é um Preminger, The Man with a Golden Arm. O jazz acompanha as personagens, o ambiente claustrofóbico e decadente dos vícios, as terríveis dependências compulsivas que destroem a vida, os afectos, o futuro. O que salva Frankie é a amizade de Molly.

É interessante ver como a amizade é compassiva mas não é cobarde. A partir do momento em que se aceita arriscar o salto para o desconhecido, a privação de uma substância, o pesadelo será enfrentado pelos dois. São dois seres livres os que conversam calmamente nessa manhã.

A amizade talvez seja o afecto mais verdadeiro e genuíno entre pessoas livres. É isso que sobressai no filme. A manipulação egoísta e doentia que o espera em casa acaba por ser desmascarada. Os manipuladores são fracos, apesar de abusarem do poder sobre outros. 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:52

O diário das tartarugas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.05.16

 

 

Este é o título original de um filme de 85 com a Glenda Jackson, o Ben Kingsley e o Michael Gambon. Porque foi este filme que me chamou hoje... é que não sei.

Este rio sem regresso fala muito de liberdade (palavra gasta), de amor maternal, de amizade. Não será essa a fórmula perfeita para o Dia da Mãe?

 

Esta amizade surge a partir de um ponto comum e de um local específico: o aquário das tartarugas gigantes no zoo de Londres. Ambos solitários e ambos fascinados pelas tartarugas e por uma ideia que começa a germinar: libertá-las no mar. Este plano concretiza-se com a ajuda inestimável do tratador. Instruções precisas sobre as condições de transporte, caixas de madeira com determinadas medidas, abertas em cima, paragens periódicas para as brindar com baldes de água por cima, instruções que cumprem à risca.

 

Paralelamente, o filme revela-nos a vida quotidiana, para uns aterradora porque inimiga da criatividade, para outros pela terrível solidão. 

 

Seja em que idade for, um plano como este, em que se beneficia a vida de alguém, e aqui não são apenas as tartarugas, mas todos os envolvidos na aventura, é sempre bem-vindo.

 

Glenda Jackson é uma actriz muito especial. Ainda não estava a navegar neste rio. Assim como Michael Gambon e a sua voz profunda.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:18

Os bons realizadores criam uma atmosfera

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.02.16

É o primeiro filme que vejo de James Gray. E vi-o por acaso num dos canais da Fox. Two Lovers traduzido para Duplo Amor.

Este é um filme que não consigo classificar, que escapa a qualquer classificação. É um encontro feliz entre um bom realizador e bons actores.

Aqui não é o argumento que sobressai, embora seja um bom argumento. Alguns dias na vida de pessoas simples. As suas alegrias e as suas tragédias. Aqui o que sobressai é a realização, que consegue criar uma atmosfera, a sua atmosfera.

Alguém transporta um saco de lavandaria, vemos esse saco baloiçar enquanto acompanhamos de muito perto esse alguém. A imagem distancia-se e vemo-lo de longe. Está parado num promontório de uma baía. Percebemos que se vai atirar antes de ver a sua queda na água. O filme começa assim, um mergulho no escuro.

Joaquin Phoenix é Leonard, veste-lhe a pele, vive o seu quotidiano. O amor dos pais já não é suficiente. Rejeitado há dois anos pela noiva, mantém a sua fotografia no quarto. O trabalho na lavandaria do pai também não o satisfaz. Mas gosta dos pais e não os quer magoar.

Leonard conhece Sandra no jantar familiar, na mesma noite da sua tentativa de suicídio. Mostra-lhe as suas fotografias - o seu sonho é ser fotógrafo - e aceita o convite da família Cohen para fotografar o Bar Mitzvah do filho mais novo. O namoro com Sandra irá desenvolver-se como um fio protector que o mantém a salvo até ao último momento. 

Nas vidas simples de pessoas simples também existem dramas e tragédias. E encontros fatídicos. E a atracção pelo abismo. No caso de Leonard, o encontro com Michelle. Leonard passa a gravitar à sua volta. Ainda resiste a essa paixão mas, como dirá à mãe, quase num soluço: "Tenho de ir, mãe."

 

O cinema respira neste filme. Na aproximação e afastamento da câmara, no ritmo, na direcção de actores, na atmosfera que cria, e no seu minimalismo. Quase lembra Ingmar Bergman.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:40

2016, um ano com muitos filmes para ver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.16

Um dia escandalizei alguns viajantes quando referi gostar mais de ver filmes em casa do que nas salas de cinema. Claro que isso implica ver os filmes com um ano ou dois de atraso. Mas será que este ano vou resistir a ver The Martian, Hail, Caesar!, Bridge of Spies, 45 Years, Joy, Trumbo?

Pela lista de filmes que espero ver este ano, verifico que continuo a valorizar o guião (Drew Goddard e Andy Weir, os irmãos Coen) e a realização (Ridley Scott, Steven Spielberg). Assim como as homenagens ao cinema (Hail, Caesar!, Trumbo) e ao trabalho dos actores na pele de personagens (Charlotte Rampling, Jennifer Lawrence).

 

Este rio sem regresso revela a vida através do cinema. Agora falta revelar o cinema através dos que o vivem e amam. Realizadores, produtores, actores, edição, fotografia, cenografia, técnicos de som, efeitos especiais, todos contribuem para o resultado final.

Distingui entre vários tipos de cinema: de autor (intimista ou narcísico); próximo do documentário (biografia ou ficção); de ideias (direitos humanos, protecção dos animais e/ou ambiental); de acção (com muitos efeitos especiais); drama; comédia; animação. Pode situar-se no passado (histórico, de época); no presente ou no futuro (ficção científica). Pode utilizar a natureza como metáfora (The Petrified Forest, High Sierra), ou a cidade (The Asphalt Jungle) ou comparar as duas (On Dangerous Ground).

Também valorizei os realizadores, pelo domínio de uma técnica complexa, pela sua criatividade e pelo seu respeito pelo espectador. Assim como os actores, pela forma como vestem a pela da personagem.

 

Como qualquer outra forma de arte o cinema vai-se renovando. Em arte a inovação é fundamental. O espectador quer ser surpreendido. No entanto, a inovação tem sido sobretudo tecnológica. Falta uma inovação cultural. Libertar-se de caminhos percorridos, de clichês (em que o espectador antecipa as cenas seguintes), de piscar de olhos aos diversos fãs (perseguições no meio da rua, pessoas penduradas em precipícios, corridas de carros, explosões, bombas desligadas no último segundo, etc.).

Hoje é a ficção científica que destaco, um filão ainda com muito para dar. 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:36


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D